Ponto Nemo: O lugar mais aburrido da Terra?

Texto: Rolando Pujol
Fotos: Arquivo do autor.
Imaginas o que é viver num lugar da Terra onde não passa absolutamente nada, onde só há mar e céu durante cada segundo de cada um dos 365 dias do ano?... Pois as aparências enganam, nesse solitário e enigmático lugar do planeta chamado Ponto Nemo, podem suceder coisas insólitas.
Foi o engenheiro croata- canadiano, Hrvoje Lukatela, quem baptizou esse perdido lugar do Pacífico Sul como “Ponto Nemo”, em 1992 e determinou suas coordenadas exatas, sem visitá-lo, com um sofisticado programa de geo localização, nos 48° 52´ 31´´Sul e os 123° 23´33´´Oeste. O ponto finca sua sonda a 3 700 m de profundidade no leito marinho.

As terras mais próximas no Ponto Nemo são as ilhas Ducie, das Pitcain, a Motu Nuo, de ilha de Pascua e a ilha Maher, próxima à Antártida, das quais separam-lhe entre 1500 e 2600 milhas.
Nemo, quer dizer “ninguém” e lhe faz um guinho, ao capitão do Nautilus, personagem icónico, do livro “Vinte mil Léguas de Viagem Submarino”, escrito pelo francês Julio Vernes. Em “A ilha Misteriosa”, outra de suas obras, localiza à ilha imaginária da história, numas coordenadas muito próximas no ponto Nemo.
Por sua localização remota e extensão de uns 22 milhões de Km², a zona oficia desde 1970, como o lixeiro das potências espaciais. Satélites, naves e até contêiners com caca e lixo dos astronautas, são dirigidos desde a órbita, até o tiradero marinho. A queda e destruição, da estação espacial chinesa Tiangong 1, foi um sensacional acontecimento seguido pelo mundo no 2018.

Nesse mesmo ano, o distante lugar, disparou os alarmes da comunidade científica, quando os sensores instalados em dois iates da regata “Volvo Ocean Race”, detectaram quantidades significativas de micro plásticos, cerca do Ponto Nemo, o pior pesadelo dos ecossistemas marinhos.
Uma rara coincidência entre a ciência e a ficção foi o fenómeno baptizado como “Bloop”, em 1997, na zona do Ponto Nemo por cientistas do NOAA (Administração Nacional Oceánica e Atmosférica dos Estados Unidos). Tratava-se de uns estranhos sons de ultra baixa frequência, de origem indeterminada.

O escritor norte-americano H.P. Lovecraft, em sua obra de culto; “O Telefonema de Cthulhu”, publicada em 1926, descreve a existência de uma misteriosa cidade submergida, na mesma zona do Ponto Nemo.
Seus enigmáticos e monstruosos habitantes, comunicavam-se, dizia, com sons de baixa frequência desde ali. Tempo depois, a NOAA, concluiu que os sons proviam/provinham da ruptura dos témpanos de gelo da Antártida, mas os “crentes”, ainda não lho concordam com isso e fazem questão de resolver asimétricamente o mistério.
O que sim se sabe ao seguro, é que as águas do Ponto Nemo, são as menos biologicamente ativas dos oceanos do mundo. Nem as correntes circumpolares, nem os ventos, trazem os nutrientes necessários à zona, pelo que não há nem aves, nem peixes. Como consequências de não cair a neve de partículas nutritivas às profundidades, os fundos estão sem vida.

No entanto, estima-se que a cercania do Ponto Nemo, aos vulcões do extremo sul da Dorsal do Pacífico Oriental, pudesse brindar condições para a existência de uma extraordinária biodiversidade, adaptadas ao ambiente termal das fumarolas, tal como sucede em outros abismos submarinos da terra.
Mas, está tão ausente de vida em realidade o Ponto Nemo? Pois comento-lhes que a cada 1 hora e 45 minutos aproximadamente, a uma velocidade de 25 mil quilómetros por hora e a uma altura de 400 Km; passam sobre o lugar mais inacessível do planeta, os astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS).

Quando a fabulosa máquina seja retirada de serviços no futuro, seu destino final será terminar sepultada, no sumidero profundo e ignoto do Ponto Nemo.